A crise existencial do guarda-roupas

Atualizado: 12 de Fev de 2019

Quando teu guarda-roupa te chama e diz: senta aqui vamos conversar.


Com o desafio de mudar para outro país, surgiu a necessidade de decidir o que eu levaria ou não para minha nova vida. Quando cheguei na parte das roupas, percebi que precisaria me reinventar quanto aos meus hábitos de consumir e vestir, para caber tudo na mala, e, isso iniciaria com um movimento interno chamado autoconhecimento.


Foi assim que começou minha pesquisa em sites e perfis da área de consultoria de imagem, em busca de entender um pouco melhor sobre este tema. Para minha surpresa, abri meu guarda-roupas e não encontrei apenas uma quantidade exagerada de roupas não aproveitadas, encontrei com três conceitos desafiadores que me fizeram transformar completamente minha percepção sobre autoimagem.


O primeiro foi falta de autoconhecimento. O ato de comprar, confesso, sempre foi um prazer pra mim. Sabe cheiro de loja? Aquela luz de provador? E a modelo, 10 anos mais nova que eu, em uma praia paradisíaca, usando roupas descoladas e com caimento perfeito? Acontece que existe uma diferença entre admirar uma roupa ou um estilo e efetivamente vesti-los. A roupa que vestimos transmite, para o nosso cérebro e para o mundo, a mensagem de estarmos ou não confortáveis sendo nós mesmas. E comprar uma roupa apenas por achar ela bonita não é sinônimo de se sentir bem dentro dela.


Nós podemos admirar uma roupa, quando a olhamos de fora, e vibrar quando a vemos em modelos lindas na internet, mas é muito construtivo saber diferenciar este prazer do ato de adquirir aquele objeto para si. Ou seja: comprar roupas não deveria ser o nosso lazer, mas um movimento planejado e consciente. É um processo que começa por olhar pra dentro e sentir com o coração o que, efetivamente, nos faz sentir bonitas e felizes sendo o que somos.


Percebi que as mulheres mais bonitas que conheço não são aquelas que se vestem com as melhores roupas, ou as mais caras, são aquelas que se vestem de dentro para fora: quando elas chegam trazem o brilho nos olhos e o sorriso de quem está vivendo a própria história, seja de rasteirinha ou de salto alto.




O segundo encontro aconteceu com o medo do julgamento alheio. E esse tema é conversa para muitos textos. Mas, falando sobre roupas, eu comecei a observar a quantidade de vezes em que deixei de usar algo porque imaginava a reação de algumas pessoas ao me ver vestida daquela forma. Com isso, percebi que o ato de se vestir representa o desafio que encontramos, todos os dias, de ter coragem para assumir para o mundo quem, realmente, nos habita. E, muitas vezes, na ausência de ousadia para enfrentar os padrões, nós jogamos a atenção para o outro julgando-o. Quando olhamos no espelho e imaginamos o que os outros irão pensar daquele estilo, surpresa: estamos enfrentando o nosso próprio juízo. Quanto de peso pode ter um comentário externo sobre a sua aparência, se você tiver convicção de que aquilo é importante pra você?




O terceiro e, não menos polêmico, encontro dentro do meu guarda-roupas foi com um velho conhecido nosso: o machismo.


O machismo, segundo o dicionário Aurélio, é “a ideologia segundo a qual o homem domina socialmente a mulher”. O que isso tem a ver com o nosso guarda-roupa? Bem, o primeiro e mais óbvio motivo é que nós mulheres vivemos permanentemente com medo de assédio. Posso dizer que todos os dias, antes de sair de casa, eu penso sobre os lugares que irei passar e trajetos que irei fazer, se existe algum tipo de risco, ou, então, simplesmente, se existe a chance de encontrar algum conhecido que tem histórico em fazer comentários sobre a aparência das mulheres.


Mas, aí que vem a questão, não podemos culpar somente os homens por este cenário. Se eu fosse um homem hoje, provavelmente, neste calor de 40 graus que faz na minha cidade, eu estaria me perguntando porque eu preciso usar terno e gravata para me sentir capaz e bem-sucedido no trabalho. Ou, o que minha esposa irá pensar se, hoje, eu disser que preciso de um tempo para mim e irei ao salão de beleza?


Nós, como todo, homens e mulheres, carregamos adiante o conceito de machismo. E isso dói para eles também. Os homens, assim como as mulheres, carregam nas costas o peso de muitas escolhas nem sempre legítimas, que são tomadas para se sentirem aceitos e protegidos pelos padrões que dizem que um homem só é digno de valor se ele tiver poder e dominação. E são esses padrões que, quando extravasados equivocadamente, se transformam em violência e assédio.


O machismo é um retrato da cultura que valoriza as pessoas pelo que elas ganham ou perdem, sem considerar o que é celebrado pelo caminho. É a nossa mania de ignorar a riqueza das diferenças, que são essenciais para o funcionamento da engrenagem social.


A pesar de ver muitas pessoas tentarem superá-lo com segregação, eu acredito que a única maneira de vencermos este estigma é a unindo forças. É aceitar que estamos todos no mesmo barco: lutando pelo direito de passar pela vida sendo e vestindo aquilo que nos faz sentir representados. Nós podemos mudar as engrenagens que moverão as gerações do futuro, ensinando sobre aceitação.




Levei alguns dias para superar tamanha crise existencial. Uma vez recuperada, consegui realocar mais de um terço do meu guarda-roupas para pessoas que poderão aproveitar e me sinto muito mais leve com isso. Parei de ir às lojas com intuito de lazer, se for para me divertir, deixo os cartões em casa. Assim, tenho tempo suficiente para voltar para casa, pensar e só voltar quando tiver um objetivo traçado. E nesse objetivo inclui me vestir condizente com o que eu quero expressar para o mundo: coragem, aceitação e propósito.



Paula Oppermann

@projetoatlanta


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