A libertação feminina - "Love her but let her stay wild"



Ando pensando em fazer uma tatuagem. Faz tempo que tenho essa ideia, mas nada nunca me parecia exatamente bom. Isso contando com a licença poética de ser uma legítima virgiana. Acontece que o momento que vivo é tão intenso, pulsante, que eu gostaria de gravar na memória essa pessoa que sou hoje, pra me lembrar toda vez que precisar redescobri toda essa coragem que tomou conta de mim aos meus 30 anos.


Pesquisa vai, pesquisa vem, encontrei uma diversidade de frases interessantes, criativas, que me fizeram pensar. E repensar. Mas uma delas especialmente me chamou atenção. Era uma frase em inglês, próximo às costas que dizia: Love her but let her stay wild (em português: ame-a, mas deixe-a permanecer selvagem).


Também nesse período, assisti “Como Superar um Fora” um filme bastante divertido que encontrei por acaso numa sexta-feira à noite. Coincidência, ou não, a personagem principal possui uma paixão genuína por escrever e se redescobre, no mundo das palavras, após um término de relacionamento traumático.


Vocês também já ouviram essa históra em algum lugar? Aquela menina-moça que se reinventa depois de um “pé na bunda”?


Foi aí que me peguei pensando sobre o quanto, nesta fase dos primeiros relacionamentos da vida, nós tentamos nos adaptar ao mundo, aos relacionamentos para nos sentirmos amadas. Aceitas. E a vida sempre encontra uma maneira dura de dizer algo que é irrevogável: nós só seremos felizes no dia que aceitarmos ser amadas do jeito que somos. E talvez isso não venha daquele cara que nós idealizamos. É o legítimo aceita que dói menos.


O amor virá do encontro com a nossa verdade, do dia que nos jogarmos na piscina, estragarmos a chapinha, borrarmos a maquiagem. Do dia em que estivermos saindo da academia descabelada e alguém achar bonito nosso jeito leve de caminhar com as costas erguidas, olhando pra cima. Do dia em que falarmos dos nossos problemas, dos nossos sonhos e nos sentirmos, ainda assim, merecedoras, amadas, não pelos outros, mas por nós mesmas.


Ás vezes deixamos nossos sonhos pra trás, nós usamos roupas que não nos representam, nós falamos “cheias de dedos”, porque afinal, ter alguém ao nossos lado faz tanto sentido, não é? Por que não dar uma forçadinha na barra? Mas aí nós formamos nossas carapaças de medos, nossas travas sexuais, nossas crenças do que é feio e errado, ilusões que consomem nossa autenticidade. Nós negamos a nossa verdade para caber na realidade de alguém que idealizamos (e que lá na frente, nem nos faria tão felizes assim). São pessoas idealizadas, que trazem um peso de expectativas daquilo que não somos.


Não é pelos términos que nós choramos. Não é por amores perdidos que nos reinventamos. É porque percebemos que ser feliz é respeitar aquilo que somos. E isso dói. Aceitar o que somos é um processo, um reencontro com a natureza das coisas.


Homens, mulheres, todos desejam ter ao lado alguém inteiro, vivo. Vejo muitas pessoas reclamarem que seus parceiros se afastam. Vejo pessoas que sentem um vazio por não ter alguém ao lado. A verdade é que todos nós somos, nascemos e morremos sós. Percorremos nossa vida temporariamente ao lado de pessoas especiais, que nos ensinam, nos acolhem, abraçam. Mas nós só pertencemos a nós mesmos e, nisso mora a paixão e a graça da coisa toda.

Ainda não decidi minha tatuagem, nem mesmo se farei. Mas fui instigada por esse espírito de libertação. Por essa conexão com o próprio corpo, com o orgulho pela minha natureza como ela é. Ás vezes, o mundo volta, me diz que tenho que seguir o script, conservar aqueles velhos costumes, tirar nota 10 na vida. Mas aí eu penso, quer saber, eu amo minhas notas doces, meus acordes desafinados, eu aprendi a amá-los assim. E lembro do que senti quando li aquela frase

: “love her but let her stay wild”.
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