Menos é mais: a revolução da felicidade

Atualizado: 12 de Fev de 2019


Um dos meus programas favoritos na vida é ir a uma sorveteria que funcione no estilo buffet, uma invenção abençoada por Deus e bonita por natureza, muito comum na região onde eu passava meus longos verões na infância. Fazia um calor intenso e, ali pelo meio da tarde, quando estava quente o suficiente a ponto de as cigarras cantarem, era a hora, vamos todos para sorveteria. O desafio começava em colocar num pequeno potinho, sim, era um potinho bem pequeno para cada um, aquela infinidade de cores de sorvete que me deixavam, literalmente, alucinada. Quando chegava na metade do caminho vinha a surpresa: ainda tinham milhares de confeitos, chocolates e caramelos para escolher. Esse foi o meu primeiro contato com os desafios árduos de viver na geração das mil e uma oportunidades.


Anos depois, já adulta, as dificuldades em fazer escolhas continuaram. Tenho orgulho de fazer parte da Era que viu a internet nascer e, com ela, uma mudança radical no acesso à informação e hábitos de consumo. Ao mesmo tempo, somos, diariamente, desafiados a fazer escolhas difíceis para caber tudo o que queremos e que podemos aprender em uma vida só. Eis que chega um momento (ele chega) em que começamos a perceber que estamos passando mais tempo dos nossos dias mirabolando nossos potes de sorvete, do que de fato apreciando cada sabor.


Quando assisti ao seriado “The Minimalists” lembrei da minha avó, que ria dos meus sorvetes e dizia: não precisa se sentir angustiada, amanhã nós voltaremos aqui na sorveteria. Se você não assistiu, sugiro reservar um momento em que esteja sem pressa (e receptivo para mudanças) para fazê-lo. Em aproximadamente noventa minutos de documentário, os autores resumem as sensações angustiantes sentidas pela nossa geração, que criou uma espécie de pacto coletivo de nunca estar satisfeito o bastante. Nunca se viveu uma época de tanta abundância e oportunidades, mas, contraditoriamente, nunca se falou tanto em ansiedade e insatisfação crônica. Afinal, quanto mais possibilidades de escolha menor fica a probabilidade de acerto, e é aí que mora o problema. Entender um pouco sobre o minimalismo trouxe algumas nuances no meu dia-a-dia que foram essenciais para eu me sentir mais feliz com as minhas decisões. Hoje, vejo que se não fosse esse gatilho, talvez a minha resposta à proposta de largar meu apartamento, consultório, carro e metade dos meus pertences pessoais para mudar de país, teria sido diferente.




O minimalismo consiste, resumidamente, em restringir o excesso de opções. É aprender a diferenciar aquilo que faz sentido e colocar em jogo apenas as decisões mais conscientes antes de se apegar a alguma nova necessidade. Trazer para a razão a ideia que nós devemos possuir as coisas e não o contrário. Ter um carro mais caro não vai nos trazer uma felicidade duradoura, mas sim, aumentar nossos gastos anuais com impostos e seguro, e despender mais tempo de trabalho para bancar o custo de vida. No entanto, se você é uma pessoa que gosta de viajar com seus três filhos e dois cachorros para praia aos finais de semana, tudo isso talvez seja um belo investimento. O segredo é focar nas vivências que te preenchem de dentro para fora, saber equilibrar e, principalmente, não se comparar com outros. O documentário fala sobre isso, quando cita que já está mais do que comprovado que a felicidade à longo prazo vem da qualidade dos nossos relacionamentos mais próximos.





Fiquei feliz e aliviada por saber que as pessoas estão começando a virar essa chave. Isso tem aparecido no crescente interesse coletivo por experiências diferentes, hábitos de incentivo à sustentabilidade, livros sobre atenção plena, aulas de meditação. Quando olhei pra essa nova versão de mundo, e apliquei na minha vida, comecei a fechar algumas peças do meu quebra-cabeça e me sentir no controle da minha história.


Confesso, quando vou na sorveteria ainda faço aquele famoso “pot-pourry” e pego um pouquinho de cada sabor, mas aprendi a sorver cada um como se fosse o último sorvete da minha vida. Quando saio de lá posso ficar um bom tempo sem voltar. Também aprendi que as pessoas que estão comigo na sorveteria são mais importantes do que qualquer coisa. Finalmente compreendi que, às vezes, nós não queremos ter as coisas, mas sim viver o que elas nos fazem sentir. E é nesse sentir que mora nossas secretas necessidades.


Pensando em toda a trajetória, a verdade é que, lá no final, nenhum de nós será lembrado pelas coisas que teve, ou deixou de ter, mas pelos amores, sorrisos e sorvetes que teve coragem para compartilhar.


Paula Oppermann

@projetoatlanta


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