Não tenha medo de ter filhos.

Atualizado: 28 de Jun de 2019

Hoje, eu quero te desafiar a mergulhar comigo num mar turbulento e profundo das ideias sobre pais e filhos. Vou começar sugerindo que você tire 30 segundos pra lembrar qual a memória principal você traz dos seus pais de quando era pequeno.


Feito? Bem, a minha lembrança é da minha mãe com um chapéu de palha e um lenço todo colorido enrolado em volta da cabeça. As calças dobradas na altura dos joelhos, os pés descalços na grama e sujos de terra. Ela estava plantando um abacateiro que viveu vinte anos no jardim da nossa casa. A lembrança do meu pai, é ele, no mar, na praia de Albatroz, no Rio Grande do Sul, onde passei praticamente todas as minhas férias da vida. Ele jogava a rede de pesca com uma força e delicadeza de quem estende uma toalha para um café da manhã, como ele mesmo me ensinava. Quando trazia os peixes, eu me sentia a pessoa mais importante do mundo na hora de limpar. E assim nós chegávamos em casa, orgulhosos pelo nosso trabalho em equipe, com o balde cheio de peixes, pra nossa janta em família.



Essa semana circulou um texto na internet que tinha como título: Não tenha filhos. E eu preciso confessar que quando li essa frase me deu um frio na espinha. Mas o pior estava por vir. Pessoas na minha timeline e WhatsApp começaram a usá-lo para condenar indiretamente outros pais pela maneira como criam seus filhos e dar a entender que elas próprias estavam mandando muito bem, obrigada. E eu, que estou aqui na casa dos trinta, me fazendo todos os dias essa fatídica pergunta sobre ter ou não filhos, me pego pensando: eu não tenho medo de ter filhos, eu tenho medo é das pessoas.



Eu te convido a voltar, então, praquele primeiro desafio da lembrança dos teus pais.

Alguém aí pensou no quanto seu pai vestia roupas caras e tinha um carro sensacional? Ou que a sua mãe tinha o corpo em dia, a bolsa da moda e um apartamento perfeito? Ou será que alguém lembrou do enxoval caríssimo comprado em outro país? Ah ops, a gente ainda não tinha nascido nessa parte.



Eu, coincidência ou não, me lembrei dos meus vivendo seus estados de flow. Flow é aquilo que a gente faz com tanto amor que nem vê o tempo passar. Lembrei deles fazendo o que amam, tirando um tempo para si mesmos. Aquilo me fazia amar e admirar eles. Hoje, quando eu me sento aqui, com a minha xícara de chá, para escrever por horas, eu sou um pouco a minha mãe, plantando o abacateiro. E quando eu coloco uma mesa farta de frutas “pescadas” por mim na feira orgânica, eu sou um pouco do meu pai pescando em Albatroz.



Quando eu penso nisso, eu me encorajo para ter filhos um dia. Porque ter filhos não é sobre ter condições psicológicas e financeiras de correr atrás do prejúizo e necessidades que nos colocam a todo momento. Não é sobre saber se vou ter dinheiro suficiente para pagar os melhores colégios, as melhores férias, ou se vou ser a melhor mãe da escola. Ter filhos é muito mais que isso. Ter filhos é conduzir, gentilmente, um pequeno ser pela jornada única e inestimável de entender o amor pela vida e aprender com isso. Eles nos ensinam todos os dias o sentido de sermos alguém melhor.



E não me entendam mal. Eu defendo que essa missão, de ser pais, deve ser abraçada com um tanto de autoconhecimento sobre os verdadeiros sonhos de vida de cada um. E está tudo bem. Mas nem sempre as pessoas escolhem ter filhos. Algumas pessoas recebem essa missão sem planejar. E aí que entra a compaixão. Tenho um medo danado que essa palavra caia em esquecimento. Mas, sim, compaixão pela jornada de cada um é um exercício que não deveríamos deixar pra lá. Gentileza é aceitar com empatia o processo de aprendizado do outro e o nosso próprio. Afinal, ninguém aqui ganhou troféu de ser humano perfeito.



Por favor, não leiam isso em tom de crítica ao autor do texto. Pelo contrário, eu acompanho seu trabalho na comunicação e sou uma fã dos temas levantados por ele. Entendam esse texto quase como uma homenagem às pessoas que vêm à público trazer discussões fundamentais. Palavras não ditas. Pra quem conhece o trabalho do Marcos Piangers, ele mesmo tem a resposta que completa o sentido do último texto que publicado. Em uma entrevista recente, que também circulou na internet, ele diz: quando seu filho lhe perguntar por que você tem que trabalhar, responda que você quer tornar o mundo um lugar melhor.



E aí voltando do nosso mar profundo das reflexões, dou uma respirada na superfície e sinto aquela paz que é voltar de uma imersão dentro das nossas paixões.




Se a gente não aprende a exercitar a intenção de nutrir a nossa alma, encontrar um estado de flow, não é o presente de Natal no final do ano que vai ensinar os nossos filhos sobre amor próprio e sobre sucesso. E veja bem, isso não tem nada a ver com tempo. Eu conheço pessoas que são tão inteiras que passar algumas horas com elas me nutre por vários dias. Não é sobre tempo. É sobre presença.


Ame a sua jornada, ame os outros, tenha compaixão por si mesmo. Não se engane, aqueles pequenos grandes olhos estão sempre nos observando.



Paula Oppermann

@projetoatlanta