O que faz teu coração bater mais forte por uma viagem?

Atualizado: 12 de Fev de 2019

Toda vez que eu me deparei com a tradicional imagem da cidade antiga de Machu Picchu em fotos, achei muito bonito o contraste das montanhas verdes com as pedras cinzas trabalhadas pelo tempo. Mas descobri que estar lá, de corpo e alma, é uma experiência que vai muito além de um cartão postal.


Eu só percebi isso quando já estava lá dentro. Algumas pessoas tiravam fotos em cima das pedras e a nossa guia turística, Aidê, os repreendeu com ferocidade, pois pisavam em um terreno que estava interditado para preservação da arquitetura da área. Foi nesse momento que eu enxerguei Aidê.


Comecei, lentamente, a reconhecer, na profundidade daqueles olhos escuros o reflexo da montanha e pude sentir que ela era parte daquela cidade. As marcas do sol na pele me falaram sobre uma dedicação diária àquele templo. Quantas vezes será que ela subia e descia aquele trajeto íngreme e pedregoso? As reentrâncias suaves do seu rosto contavam sobre alguém que fala com emoção quando lembra das lendas do seu povo Quéchua. Fiquei hipnotizada. Aidê transformou um passeio normal, em um cativante encontro meu com a História viva.


Aidê nos contou coisas absolutamente incríveis a respeito daquela civilização. Sobre como a cidade foi projetada de tal forma que a posição de cada pedra da construção foi colocada em um ponto onde a incidência dos raios de sol mostra em que época do ano estamos. É por isso que a porta principal da cidade é chamada porta do sol, onde o sol nasce quando é solstício de verão.


Conversamos sobre a conexão do povo Inca com as coisas da natureza. Sua divindade máxima é representada pela Pacha Mama que significa “mãe terra”. Os Incas não se sentiam apenas espectadores dos fenômenos do universo, ou observadores privilegiados de belas paisagens. Eles viviam essa relação. Eles se percebem intimamente como filhos da terra.


Foi ali, nas lendas, nas pedras moldadas com formas de pássaro, na imagem de onça inspirando a coragem que eu percebi a profundidade deste povo. Entendi que eles sentiam a natureza dentro de cada história, de cada movimento, dentro deles. Eles reverenciavam o dom primordial de receber, usufruir e gerar vida. Nós somos a natureza.



Caminhando dentro das ruínas de Machu Picchu, me perguntei porque nós negamos tantas vezes a nossa força vital no mundo. Por que tentamos controlar de todas as formas o rumo da nossa vida, como se tudo dependesse unicamente do nosso esforço? Quantas horas já passei me perguntando qual é o meu propósito, o que eu posso fazer para minha existência ter algum sentido maior.


Aidê, em 30 minutos de conversa pelas ruinas de Machu Picchu, arrisco dizer, me ensinou mais sobre propósito do que pude absorver em um ano de estudos para vestibular decorando fórmulas que nunca mais usei. Não quero dizer que não seja necessário, muitas vezes, baixar a cabeça e dedicar um bom esforço aos nossos projetos, pelo contrário. Porém, algumas vezes, já me vi percorrendo caminhos difíceis me culpando por não ter a performance esperada, por não estar com todas as metas em dia, buscando um projeto ideal. E se o nosso projeto ideal for cursar a vida para aprender sobre a nossa natureza?



Muito se fala hoje em propósito. Eu não vejo o propósito necessariamente como o nosso trabalho. Se for, melhor. Mas, temos mil outras oportunidades no nosso dia para nos enxergamos com orgulho pelo que somos. Nosso propósito pode estar naquela nossa demora em frente a uma obra de arte, naquela aula de culinária asiática que nos fez perder a noção do tempo, naquele encantamento que temos degustando um bom vinho e percebendo suas nuances diferentes. Fazer algo bem feito é apenas uma consequência de sermos movidos por paixão. Sem forçar a barra, sem querer agradar ninguém. Propósito é aquilo que a gente simplesmente é, de dentro pra fora. Fácil. Suave.


Esse movimento de reflexão e conexão com aquilo que sabemos ser naturalmente, e que pode influenciar positivamente outras pessoas, é a nossa natureza nos convidando para a felicidade de ser livre, leve e solto. É a nossa “mãe terra” sussurrando: eu tenho orgulho do que você se tornou mesmo com os altos e baixos da nossa trajetória juntos.




Desde lá quando eu viajo para algum lugar, eu tenho outros olhos. Viajar pra mim, não é só mais um carimbo no passaporte, é uma oportunidade de me redescobrir em pequenos detalhes da minha atenção, do meu coração batendo mais forte, nos sabores novos que ouso provar. Posso dizer que Aidê, naquele dia, exerceu seu propósito com maestria. Ter me inspirado a me conectar com a minha natureza foi apenas mais uma dentre as milhares de estrelas que ela pintou por aí, apenas sendo ela mesma.


Paula Oppermann

@projetoatlanta


(Todos os direitos autorais sobre os textos são reservados à autora do blog. Contato paula.op@gmail.com)


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