O que torna alguém insubstituível?

Atualizado: 24 de Out de 2019


Sempre que volto de férias, tenho uma sensação muito esquisita. Meu carro está lá, na garagem; os meus pacientes foram bem atendidos por algum colega que, gentilmente, se prontificou; minha cachorrinha continua latindo feliz quando vê um petisco; os ponteiros do relógio continuaram batendo, tudo normalmente. Se passaram 20 dias, e pouca coisa mudou. É quando percebo em mim esta sensação embaraçosa.


Todos os dias, me responsabilizo por uma série de tarefas, me engajo em diversas funções que delego a mim mesma cheia de autoridade. Dou, literalmente, a minha vida por algumas causas. Mas o que faz, de fato, uma pessoa ser insubstituível?


Ontem, chegou uma notícia que foi, para mim, um triste encontro com essa reflexão, motivo pelo qual resolvi abordá-la hoje no blog. A morte precoce do jornalista Ricardo Boechat, em um acidente de helicóptero, me trouxe a visita de uma velha conhecida sensação de perder alguém insubstituível. Eu aprendi tudo que sei sobre isso quando perdi meu avô, há pouco mais de um ano. Também vi nuances destes mesmos sentimentos quando passei por despedidas de outras celebridades que admirei, como a Princesa Diana e os Mamonas Assassinas.


O que essas histórias têm em comum?


Foi assim que me vi mergulhada nesse oceano profundo formado pelos pensamentos sobre as despedidas, onde às vezes, me afogo por uma ou outra lágrima de saudade. Engraçado, mas sempre que se fala em perdas, nós acabamos, em algum momento, chegando em espiritualidade. E não falo só em morte. Falo de toda forma de desapego inevitável.


Me lembrei das quatro nobres verdades de Buda (Siddhartha Gautama). São quatro teorias que fundamentam o Budismo e explicam os passos para entender e conviver com sofrimento humano. Em resumo, trazem a ideia de que todas as perdas são uma certeza que deveríamos abraçar delicadamente e aceitar como parte importante da trajetória. Nada pode ser para sempre nosso. Mas, aí vem o encanto, tudo que passa por nós tem a capacidade de nos transformar para sempre.


Todas as manhãs, a caminho do trabalho, eu ouvia o Ricardo Boechat no rádio. Ele falava o que ninguém tem coragem de falar nos noticiários. Para ele, toda opinião importava, mas nenhuma importava mais do que as outras. Ele reconhecia a carência de sinceridade em um país em que a alienação, o interesse e a impunidade são os modos operantes mais óbvios. Ele não temia nenhum credo, partido ou autoridade, chamava todos a assumir as consequências daquilo que fazem.


Boechat levava ao extremo a arte de comunicar uma ideia com ousadia e coragem. E o fazia com a constância de quem se alimenta dos seus próprios valores todos os dias no café da manhã. Alguém que defendeu a notícia como uma ferramenta a favor do público e da verdade. E, desta forma, moveu esse público para pensamentos mais elevados sobre sua existência e seu papel enquanto cidadão. Ele nos conduzia a um encontro matinal diário desconcertante e risonho com a arte de ser autêntico.


E este é o paralelo que fiz entre as pessoas que se tornam insubstituíveis. Elas cruzam a vida de mãos dadas com a verdade do seu coração. Elas passam pelos momentos ruins, pelas críticas, com coragem e persistência, porque são perdidamente apaixonadas pelo que acreditam. É através do exemplo que nos inspiram a fazer o mesmo. Deixam, nos nossos ouvidos, o som das suas primeiras notas musicais do dia em que experimentaram um novo instrumento, e a lembrança de uma risada gostosa de quem não se leva tão a sério. Plantam, nas nossas mentes, inspirações que abrem nossos caminhos para pensar diferente, a buscar a verdade do nosso coração com autenticidade. Um brinde às pessoas que nos mostram a delícia do frio na barriga de viver a vida com coragem e paixão.


Os relógios continuam batendo, o trânsito continua caótico, as segundas-feiras são as mesmas, os barcos continuam partindo.Boechat dizia todas as manhãs: "toca o barco". Mas, eu venho lembrar, de vez em quando, olhe para o mar e veja o reflexo daqueles que te inspiraram a ser alguém de verdade, do coração. Eles estarão sempre ali, translúcidos e brilhantes exemplos reais de autenticidade e coragem. Lembranças de que podemos e devemos viver histórias que nos tornem insubstituíveis.


Paula Oppermann

@projetoatlanta


#RicardoBoechat

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