Tesouros de família: não adie mais esse encontro.

Atualizado: 12 de Fev de 2019


O meu ‘throwback thursday’, ou #tbt, de hoje é uma homenagem ao passado que vive bem perto da gente.


Sempre celebrei muito a história de vida dos meus avós. Ela faz parte de muitas camadas da minha biografia. Posso dizer que minha paixão por histórias de vida vem (muito) dessa relação.


Durante um passeio despretensioso ontem, coloquei meus olhos sobre um livro que parecia ter sido planejado especialmente para o meu desafio atual, conhecido também como Projeto Atlanta. Na capa dizia: tesouros de família. Um livro para darmos aos nossos avós, pais ou a quem os represente em nossa vida. Ele é feito de perguntas, dos mais variados tipos, a respeito da trajetória da pessoa. Ela escreve ali suas maiores riquezas para serem lidas pelos descendentes algum dia. Na hora, juro, fiquei parada olhando sem acreditar que esse livro existia. Me senti quase vigiada com essa coincidência da vida. Colocar um livro desses na frente de alguém que está encarando processos de despedida deve ser obra do rastreador do Google.


Me emocionei bastante. Na mesma hora mandei uma mensagem para minha avó e combinamos um café da tarde para o dia seguinte (no caso hoje). Escrevo aqui ainda com meu coração transbordando de café e amor após esse encontro. E ainda não consigo descrever o que foi mais bonito de tudo isso.


Os meus encontros a sós com o piano antigo na casa dos meus avós é sempre um ponto alto difícil de ser superado nas minhas visitas. Mas, hoje, me permiti ir além. Coloquei o livro em cima da mesa e me dediquei às perguntas, algumas delas nunca tinha feito. Perguntas muito simples como: o que você queria ser quando crescer? Qual o momento mais especial da sua vida?


Eu saí de casa pensado que iria bater um papo que me acrescentaria um maravilhoso livro de histórias de família. Mas era mais do que isso. Dentro de uma nuvem embriagante deliciosa do cheiro de café com bolo e som de risadas soltas, eu, de repente, via ela se vestir de si mesma com ar vitorioso. A cada resposta ela percebia a mulher maravilhosa que é e o orgulho que tem das suas escolhas. Orgulho pelas coisas que conseguiu abrir mão quando foi necessário, por ter dedicado uma grande parte da sua vida a cuidar das pessoas da família, de como usava a criatividade, dia após dia, para criar os cardápios da casa que acabavam virando motivo de festa e de encontros na hora do almoço. Cada pergunta ia construindo tudo aquilo e fazendo com que ela se percebesse extremamente importante para todos nós. Minha avó ia lembrando, uma a uma, receitas de vida, que foram um elo vital de união na nossa família por anos. Com sua dedicação, ela nos movimentou para perto uns dos outros. Assim nasciam os encontros que faziam as nossas diversas histórias entrecruzarem-se naquela mesa grande da sala, entre uma macarronada com massa feita em casa e uma ceia de Natal barulhenta.


Deixei para o fim a minha clássica pergunta a respeito do que é a felicidade.

A resposta: ser feliz é viver um dia de cada vez, com dedicação aos detalhes.





Precisava escrever isso ainda hoje. Enquanto o café ainda circula aqui dentro. Não quis correr o risco de me tornar racional e técnica demais ao contar essa história que merece toda minha intensidade. Percebi que é quinta-feira. Dia do que as pessoas chamam na internet de “throwback thursday”, quinta-feira de voltar no tempo. Dia de postar coisas que ainda mexem com a gente, mas que já passaram. Mas por que não usar esse dia pra lembrar desse passado que mora tão perto? Poderíamos eleger a quinta-feira de ligar para nossos avós, pais e perguntar o que fez eles felizes hoje, e não só o que terão para o jantar.


Com o tempo a gente vai percebendo que uma fresta de porta aberta é uma oportunidade única de entrar na sala de estar, sentar e ouvir sobre a trajetória de vida de alguém. Mais que isso, instigar o outro a conversar consigo mesmo, enxergar sua beleza, redescobrir sua esperança. Saímos de lá com um plano lindo para minha avó voltar a estudar História, curso no qual se formou aos 40 e poucos anos com três filhos pequenos em casa, na época em que não existia fraldas descartáveis.


Foi assim que ela lembrou que sabe muito bem o que é coragem. E eu percebi que não tem nenhum tipo de inspiração na vida maior do que a que vem daqueles que são, nada menos que, pedaços do que já éramos antes mesmo de existir por aqui. Obrigada Projeto Atlanta, por mais essa.


Paula Oppermann

@projetoatlanta


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