Um presente escondido no Sudeste da Ásia


Coisas que esqueci. Arrependimentos. Saudades do que não vivi. Textos não escritos. Bobagens. Medo do novo. Trabalho pra entregar. O souvenir que vou comprar na volta. Barulho de água. Medo do tempo. E de repente, lembro, estou num barco palito, navegando não sei pra onde, no Rio Mekong.



Há tempos, minha atenção vinha voltando com frequência para o tema de Mindfulness (atenção plena) uma prática de meditação que tem origem no Budismo e está entrando com força total no campo da Ciência. Esta coisa toda de estar presente. Viver plenamente as experiências. Aqui e agora.



Meu interesse por meditação e teoria do Budismo foi um dos muitos motivos que me fizeram viajar para Ásia, mais especificamente para Luang Prabang, no Laos. Para mim, como legítima ocidental, a ideia era chegar lá, encontrar alguns templos, alguns locais de cartão postal e, assim, sem muita dificuldade, entenderia, mais ou menos, como a coisa funciona. Mais um check para lista. Eu estava errada.



Não é nas estátuas gigantes de Buddha, nem nas vestes alaranjadas dos monges que a gente entende o que é o Sudeste da Ásia. Não é no Pad Thai (prato típico) nem no azul das águas turquesa das praias Tailandesas que a gente se sente do outro lado do planeta. A beleza da história toda está no impacto cultural, nas camadas mais profundas que uma mente distraída não consegue acessar. Dá um certo trabalho. Mas vale a pena.




Foi assim que eu comecei a entender o desafio e a delícia de abraçar o silêncio e estar presente naquela viagem (e em todas as próximas da minha vida).



A alma do Sudeste Asiático está na conexão com uma outra realidade. É enxergar aquela criança descalça que mora na margem do rio e te abana com um sorriso banguela e a cabeça raspada, está estudando budismo, e eles raspam a cabeça em honra ao desapego da aparência e do que é material. É não entender nada na quietude de um instante onde se navega por duas horas em uma travessia por águas escuras em um barco com três pessoas, eu, meu marido e o guia, sem saber bem para onde estávamos indo. Está na forma como esse vazio todo provoca conversas e, de repente, o guia fala sobre sua vida e do orgulho que sente em pertencer a um país de natureza tão preservada. É só isso. Parece simples, nas não é.


Percebi que a minha mente fugia o tempo todo dos pequenos detalhes. Me desconectar das minhas necessidades turísticas ocidentais foi um desafio enriquecedor. Um presente do sudeste da Ásia.




Não sei se foram os ruídos suaves das águas, ou a humildade que surge na gente ao tirar os calçados e se curvar para Buddha em silêncio. Mas tudo isso me fez pensar. Pensar na quantidade de distrações automáticas que me distanciam de me conectar com a minha paz no meu dia-a-dia.


O que pode ser mais urgente do que uma conversa franca com a minha verdade?

O que pode ser mais inadiável do que descobrir que meu amigo ainda tem aquela mesma risada gostosa que me faz esquecer do tempo?

Qual o objetivo, tão importante assim, para o qual estou vendendo meus melhores dias?



Tudo isso para dizer que, a maior distância

(da felicidade, das pessoas) que existe não é a distância física ou a falta de tempo.

É a confusão das nossas prioridades. É a nossa fuga mental, o tempo todo, para longe dos detalhes, das sutilezas do dia, que passam despercebidas. É evitar o silêncio (constrangedor), por medo e fugir das surpresas do nosso "não fazer nada" juntos.


Nós não precisamos ir para Ásia para ouvir a voz do nosso silêncio. Basta lembrar que ele existe. E, de repente, ali, numa segunda-feira qualquer, a gente pode sentir, em um detalhe, que cada segundo da nossa vida é, como bem diz o nome, um aprendizado, uma dádiva. Um presente que podemos dar a nós mesmos não só quando estamos viajando, mas todos os dias.




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